quinta, 19 de maio de 2022
Desordem & Caos
Autoria
Camila Similhana
Curadoria
Raul Lanari
Exposição virtual executada com base em tese defendida junto ao Programa de Pós-Graduação em História da UFMG em dezembro de 2018.

Editorial

Escrever sobre cadeias locais não é fácil, mas tentarei abordar o assunto ao longo desta breve exposição virtual. Embora a história das prisões tenha crescido muito nos últimos anos, existem alguns nichos dentro daquele universo que enfrentam dificuldades: quando não são as fontes é a pouca bibliografia, como é o caso de Minas Gerais. Neste sentido, a vasta documentação do Arquivo Público Mineiro exposta ao público em 2013 é exemplar: cerca de vinte mil documentos e muito ainda o que pesquisar. Parte destas fontes foi analisada por mim, dando origem a uma tese de doutorado defendida junto ao Programa de Pós-Graduação em História da UFMG no ano de 2018.

O estudo em questão se dedicou a explorar as cadeias locais mineiras de cidades cuja documentação prisional se mostrou mais consistente ao longo da Primeira República (1889-1930). O período foi escolhido pois mesmo com muitas restrições, constituiu um tempo em que os debates sobre a humanização carcerária começaram a ganhar espaço entre os juristas. Nas localidades mineiras, delegados, juízes e promotores também passaram a se preocupar mais com as vicissitudes dos espaços prisionais, cobrando do chefe de polícia estadual maior atenção aos problemas dessa natureza. Entre a documentação analisada, cinco cidades se destacaram: Diamantina, Guanhães, Juiz de Fora, Barbacena e Sabará. As fontes da cadeia de Ouro Preto não foram incluídas por serem excessivamente numerosas e as fontes da cadeia de Belo Horizonte foram deixadas de lado por se mostrarem superficiais.

Por meio da valiosa oportunidade concedida pelo Memorial Minas Gerais Vale, pude transformar, com o auxílio de uma valorosa equipe, a pesquisa citada em uma exposição virtual. Trata-se, portanto, de um trabalho acadêmico repensado de forma criativa para ser exibido em um ambiente virtual. Por conta disso, foi articulado de maneira a manter o rigor acadêmico, mas dialogando com as possibilidades abertas por aquele contexto.  O resultado foi a essência da tese convertida em um jornal de época fictício, que atravessa o período republicano para abordar a temática prisional desde as casas de câmara e cadeia até as rebeliões carcerárias contemporâneas.

Considerando a hospedagem digital, tomamos a liberdade de usar algumas “licenças poéticas” para explorar o assunto por meio de nuances distintas, de modo a tornar a experiência mais diversificada. Neste cenário, foram usadas fontes manuscritas e imagens de época, mas também registros atuais, corroborando a ideia de que o debate prisional perpassa diferentes períodos e é repleto de permanências que parecem se mover em direções contrárias às conquistas empreendidas pelas lutas no campo dos direitos humanos.  

Camila Similhana

Bacharela e licenciada em História pela PUC-Minas, mestra em Ciências Sociais pela PUC-Minas, doutora em História pela UFMG, desenvolve residência pós-doutoral junto ao PROMESTRE-FAE/UFMG. Inicialmente se interessou pelo estudo da segurança pública mediante recorte de gênero nas décadas finais do século XX, migrou para a repressão aos grupos étnicos, mais precisamente as comunidades ciganas, no final do período imperial brasileiro. Desde o ingresso no doutorado, tem se dedicado à história das prisões no Brasil, mais especificamente as cadeias locais mineiras, buscando, na medida do possível, dialogar com o que é produzido a respeito nos outros estados brasileiros, já que por enquanto não temos uma história das prisões nacional, mas sim uma das história prisional com recortes regionais.